“Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas de uma engrenagem caduca”
“ Os homens baixaram a cabeça, em anuência. Ti Paulino parou de limpar o tampo do balcão; mas nada disse, A fraqueza do negócio e os fiados, que nunca recusava, tinham-lhe amortecido a antiga tagarelice. Envelhecera muito. Apenas à hora da B.B.C. vibrava ainda fiel às ideias e aos homens cujos retratos ornamentavam as paredes.
Zé Lérias continuou: - Razão tinha eu, desde o princípio; mas ninguém quis seguir os meus conselhos…. Agora, em vez de terras, tendes aquela sombra negra para sempre. Estão ali milhares de contos à ferrugem. – E pôs-se a marralhar em certa ideia.
- O mal não é da fábrica, mas da guerra, que consome as matérias-primas e o carvão – objectou Fariseu.
- Pois sim. Mas se cada qual amanhasse uma courela, tinha pão com fartura, pelo menos. Além disso trabalhava por sua conta, que é o melhor.
- Ora o que faz o progresso são as máquinas. Há lá coisa mais bela que um motor a trabalhar!
- Isso diz você, que nunca viu nascer um pé de trigo. Progresso! Você e os mais devem ter a barriga cheia dele.
Foi estendendo a mão à esquerda e à direita, em despedida, indiferente aos argumentos do operário, e, da porta chacoteou:
- Adeusinho. Avenham-se com o progresso.
Ninguém mais falou, por muito tempo. A controvérsia envenenara o ambiente, exacerbando a raiva contra a fábrica. Os operários passaram a olhá-la de banda e a distância, e, às vezes, dirigiam-lhes palavras rancorosas.
……………………………………………………………
O alarido batia de encontro aos peitos timoratos e abalava-os como porta que se não pode abrir, mas ia cedendo. Por fim o magote fez-se num mar de trapos e bramidos e o mar rolou pela rua abaixo com fragor.
……………………………………………………….
- Parem! A fábrica…… Escutem por favor….
Foi levado na onde humana, de roldão: bateu com a cabeça nas paredes; um fio de sangue escorreu-lhe da testa até aos beiços.
Levantou-se, porém: galgou o muro da horta, em correria e embrenhou-se na sombra do hangar.
………………………………………………………………….
- Mas a maioria que Robalo chefiava pretendia esfanicar o forno e os motores.
De súbito, no patim da escada que dava acesso aos maquinismos, apareceu um vulto com o bico de uma parelho de soldar acesso, na mão direita, e um ferro, na sinistra.
-Aquele que subir, queimo-lhe os olhos! – Trovejou, embora incapaz de cumprir tal ameaça.
A multidão parou estupefacta. À luz do maçarico a cara do Fariseu, lambuzada de sangue, horrorizava.
……………………………………………………
Tenham juízo! - Berrou de novo, o operário - Qualquer dia podem aparecer comboios de carvão, e sem máquinas nunca mais haveria trabalho nesta aldeia. A culpa não é da fábrica. É de quem faz as guerras e a fome.
Tem razão - exclamou Triste. E foi como o sinal para um coro dissonante.
-Queremos pão!
- A gente quer trabalhar, e não tem onde!>
…
Oiçam! Aqui não se encontra que comer. Vamos à vila. O regedor Lazário foi-se embora? Pois reclamaremos trabalho ao administrador, que pode mais. Quem me acompanha?
- À vila ! À vila! Esganiçou-se a multidão, irrequieta e volúvel como as ondas do mar.
O orador desceu a escada e pôs-se em marcha. Atrás seguiu o povo da aldeia entusiasmado, passo largo, cada vez mais certo……..”
“Setembro 1944 – Soeiro Pereira Gomes- Engrenagem"
____________________________________________________
Um abraço
Ana
Pagina oficial de Um Grupo Excepcional de Aprendentes e Formadores que têm em comum a AMIZADE e a SOLIDARIEDADE
domingo, 30 de setembro de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Histórias de Vida – “MEDOS”
As mesas estavam tão próximas que não pôde deixar de ouvir:
-“É melhor darmos o nosso nº de telemóvel e o da polícia aos nossos vizinhos e pedirmos que se ouvirem alguma coisa chamem a polícia.
-Para quê perguntou-lhe a mulher?
- “Assim vamos mais descansados para férias”, - respondeu-lhe o marido.”
Ouviu esta conversa no domingo à hora de almoço num restaurante de bairro, e, não pôde deixar de pensar que o MEDO estava a tomar conta dos portugueses,
Ela própria na véspera tinha estado todo o dia num estado de grande ansiedade, porque a sua filha mais nova tinha ido, pela primeira vez, a um concerto e para “apanhar um bom lugar”, tinha estado na fila desde as 9 horas da manhã e o concerto era só às 8 da noite !!!!
Cada vez que lhe ligava, antes do início do concerto e não era atendida, começava a sentir-se angustiada, MEDO tinha tido muito MEDO que lhe acontecesse alguma coisa!
As imagens que a televisão passou sobre o atentado de Utoya, já tinha passado um ano, deixaram-na angustiadas todo o fim-de-semana.
Lembrou-se que ainda há bem pouco tempo, ao ir apanhar o comboio para se deslocar para o seu emprego em Lisboa, tinha tido um “choque” :
- Ao chegar à estação dos comboios, por volta das sete e pouco da manhã, deu com dois comboios, parados, um a seguir ao outro, com meia dúzia de metros a separá-los, na linha do sentido, para Lisboa.
Dirigiu-se para o fim da estação, como era seu hábito e, deparou-se com uma multidão que ladeava um banco. Aproximou-se e viu um jovem, deitado com a camisa coberta de sangue.
“-Que tinha sido assalto diziam uns”. –“Foram os “pretos” essa cambada, diziam outros”.
Foi ter com um revisor que falava, ao telefone e que dizia em voz alta:
“ Que não sabia quando chegava o INEM e que não tinha telemóvel para ligar outra vez para o 112.”
Emprestou-lhe o seu telemóvel, para que ligasse para o 112, e, ficou a saber que não tinha sido um assalto mas sim o resultado de uma discussão entre passageiros.
- Na estação do Cacém um passageiro terá empurrado uma jovem, a mãe da jovem interveio e, o passageiro não esteve com meias medidas, agrediu as duas. O jovem, o ferido, interveio, e nem deu porque tinha levado uma facada, dada pelo tal passageiro, que entretanto se tinha posto em fuga e que afinal até era branco……
Ainda assistiu à passagem do tal passageiro, algemado, acompanhado já por polícias a caminho da esquadra.
À noite tentou saber, junto do responsável da estação se tinha alguma notícia do jovem, mas não obteve nenhuma informação.
A que estado, de alma, chegámos para que uma discussão origine tanta violência.
Não se conseguia libertar da sensação de que vivíamos uma paz, que era artificial, e que um dia destes rebentava que nem uma bolha gigante.
A ineficácia do Governo também contribuía, e muito, para o MEDO de que não se conseguia libertar. Não era MEDO físico era uma sensação de intranquilidade.
A intranquilidade de quem sente que o que foi conquistado pela sua geração está em perigo permanente:
- O Direito ao trabalho
– Quem pode ter tranquilidade com uma taxa de 18% de desemprego ??
- O Direito à saúde
– Quando ouvia alguém falar do Sistema Nacional de Saúde perdia a paciência. O que estava em causa era e é o Serviço Nacional de Saúde, consagrado na Constituição e não o Sistema Nacional de Saúde;
- O Direito à Educação
– Uma das suas filhas estava em risco de ter de mudar de escola, só porque tinha tido a pretensão de mudar de área no 10º.
- “Era o preço a pagar por não saber o que queria, tinha-lhe dito um responsável da escola” !!!!!!
A sua escola, a atual fica a 5 minutos de casa, mas as alterações resultantes dos Agrupamentos Escolares podem deixá-la sem vaga.
Se nos distraímos um pouco, só, que seja ficamos sem nenhuns direitos e, não pensava só em si pensava e muito, nas gerações futuras.
O cansaço que sentia nas pessoas com quem se cruzava no dia-a-dia, também, lhe fazia sentir MEDO. MEDO da apatia, generalizada, que pouco a pouco ia ganhando terreno no seu, nosso, País.
Ao ver as notícias das manifestações em Espanha, e, não gostava mesmo nada que nos comparassem com os Espanhóis, não pôde deixar de se lembrar de um Poema de Miguel Torga:
PANORAMA
Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras,
Sem gritos,
Sem o eco sequer duma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! Povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!
“Miguel Torga-Poesia Completa”
____________________________
UM abraço Ana
sábado, 7 de julho de 2012
Histórias de Vida – Amorfismo ou Medo?
Um destes dias ouvi um dirigente sindical afirmar em público que tínhamos que acabar com o amorfismo em que os portugueses estão.
Há muito tempo que não ouvia empregar este termo e tive dúvidas se o estava a entender bem. Pensando melhor penso que o que quereria dizer é que os Portugueses precisam de reagir de partir para a luta de não se acomodarem….
Não sei se os Portugueses estão a sofrer de amorfia mas tenho a certeza que a uma boa parte deles o que os impede de falar é o MEDO, MEDO de perderem o emprego, MEDO de serem agredidos. MEDO !!!!! MEDO !!!!! De tudo.
Vem isto a propósito de uma cena a que assisti nos Armazéns do Chiado na cafetaria dum espaço que vende livros, música….
Estava eu sentada a uma mesa, a comer, quando vejo uma jovem com uma chávena de chá numa mão e um prato com um bolo na outra dirigir-se para uma mesa que estava vazia.
Volto a olhar e vejo-a a voltar para trás a abanar a cabeça, com um ar indignado.
Moral da história, estava um grupo na fila para pagar os cafés e um dos membros saiu da fila para ir “marcar” a mesa e a jovem que estava à frente ficou sem lugar.
Ofereci-lhe lugar na minha mesa, que aceitou, e fiquei com vontade de a questionar porque é que não tinha dito nada, mas não o fiz. Certamente o que a travou a ela foi o medo de uma discussão em público. O que me travou a mim foi o pudor, não a quis incomodar mais do que já estava.
Será que já não vale a pena reagir? Que já estamos tão esgotados? Que já nos consideramos derrotados?
Quem responde ????
___________________________________
É uma republicação mas a pergunta mantém-se:
- Quem responde?
- Por onde andam que não se deixam ouvir?
Um abraço
Ana
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Os meus POETAS - Flor da Liderdade
Flor da Liberdade
Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós… Também nós… E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade dos homens sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos o poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.
"Miguel Torga – Antologia Poética"
_______________________________________
Um abraço
Ana
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Os meus POETAS - Biografia
Biografia
Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.
Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É, ela, prisioneira,
Que vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.
"Miguel Torga – Antologia Poética"
__________________________________________
Um abraço
Ana
Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.
Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É, ela, prisioneira,
Que vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.
"Miguel Torga – Antologia Poética"
__________________________________________
Um abraço
Ana
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Os meus POETAS..... Não Passarão
Não Passarão
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
“Miguel Torga – Antologia Poética”
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
“Miguel Torga – Antologia Poética”
domingo, 20 de maio de 2012
Os meus POETAS ...Cansaço
Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, em "Poemas"
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, em "Poemas"
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