segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Os meus POETAS::::

-Às vezes apetece desabafar, não ao ralo de um diário, mas publicamente, alto e bom som.

Atirar aos quatros ventos meia dúzia de verdades de que ninguém suspeita, e são cilícios cravados no coração. Mas o pudor, em certos casos, pode mais que o desespero. E calo-me.

Além de nada me garantir que o feitiço se não voltasse contra o feiticeiro. Não há que fiar nesse pacto formal de conivências que dá pelo nome de senso comum.


“Miguel Torga – Diários”



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Um abraço Ana

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Os meus POETAS....

“- Lavro aqui mais uma vez o meu protesto contra toda esta filosofia do pessimismo que nos sufoca, e esta literatura do absurdo que nos liquida. Nenhum argumento nem nenhum sortilégio podem apagar no espírito do homem a luz de ilusão que ali bruxuleia. O erro grosseiro dos ironistas e dos derrotistas é não verem que eles próprios desmentem o visco e as profecias, porque, se lutam, é porque confiam. Sobretudo parece-me uma limitação querer fotografar para a eternidade a face monstruosa de um momento. A Europa pode estar cansada, falida, contaminada por vícios incuráveis, mas a Europa não é o mundo, e ela própria tem ainda pedaços do corpo sem gangrena. Quando todos os analfabetos e famintos que lhe restam tiverem voz e pão, e falem de náusea, quando a herança da história, os bens do espírito forem repartidos igualmente por todos os seus filhos, e o clamor colectivo seja de teimosa renúncia, então sim, soou a hora. Mas antes disso, não!
…….


Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da actual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos deitam sal nas chagas para as avivar.
Alienação humana! Quem é que autorizou meia dúzia de intelectuais impotentes a falar deste modo em nome da humanidade? A chapinhar na lama deles, e a proclamar que é na lama dos outros? Que o testemunho da nossa aventura na terra é um rosário de traições e injustiças, ninguém o nega; que é preciso que se diga isso de todas as maneiras, é evidente; mas nem tudo o que fizemos foi mau, e estamos a começar ainda.
Não! Há-de haver uma salvação possível neste mar de naufrágios, e vão sendo horas de erguer a voz contra os derrotistas da jangada. Aterrados pelas suas fúnebres ladainhas, temo-nos esquecido de reparar nos acenos do horizonte, onde amanhece sempre uma ilha à nossa espera. Não a ilha solitária de Robinson, que seria o recomeçar inútil duma vida de egoísmo e de esterilidade, mas o húmus generoso dum novo mundo onde se possa semear a esperança.”

Miguel Torga – Diário

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Um abraço
Ana

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os meus POETAS.......


Os Grandes Indiferentes



Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Para o efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif’rentes.•
Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós -próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

Ricardo Reis - "Odes"

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Um abraço Ana

sábado, 8 de junho de 2013

"Os meus POETAS" .......



Com Fúria e Raiva


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras


Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada


De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse


Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner "O Nome das Coisas"

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Um abraço
Ana


quarta-feira, 1 de maio de 2013

"Os meus POETAS" .......



1 de Maio de 1974


- Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.

- Mais bonito do que a Rainha Santa…. – dizia uma popular.

Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado.

Há horas que não são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Nas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: Em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?

A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam acessos de lucidez.


“Diário Volumes IX a XII– Miguel Torga”

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Um abraço Ana

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Os meus POETAS......

O INFANTE


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!




“Fernando Pessoa – Mensagem"

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UM abraço Ana

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Os meus POETAS......




PRIMEIRO / O DOS CASTELOS


A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.


"Fernando Pessoa - Mensagem"


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Um abraço Ana

sábado, 16 de março de 2013

Os meus Poetas....

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

“JOSÉ RÉGIO"

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Um abraço
Ana

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Histórias de Vida – Uma pequena esperança




Acordou naquela manhã a pensar numa frase que não lhe saía da cabeça;


- "Uma pequena esperança, mesmo uma esperança sem esperança, não prejudica ninguém."


Lera-a há muito tempo, num livro de um dos seus autores favoritos John Steinbeck e, não lhe saía do pensamento, -" deve ser devido ao estado do nosso País" - pensava ela nessa manhã chuvosa.

Voltou a lembrar-se dela, quando, às sete horas da manhã, reparou que já estava um vendedor, na estação de caminhos de ferro, a oferecer guarda chuvas.

Veio-lhe à memória, durante o dia, quando reparou na quantidade de vendedores de guarda chuvas que tinham "invadido" a Baixa.

Lembrou-se dela à noite quando, com um sorriso,respondeu, às nove da noite, que não obrigada, não precisava de chapéu-de-chuva, ao mesmo vendedor que tinha encontrado às sete horas da manhã desse dia.

É apesar desta " crise" enquanto à vida há esperança pensou pouco antes de adormecer.


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Um abraço do tamanho do mundo.

Ana
Ps - Um dia destes julgo ter visto, na televisão, o Luis a cuidar de feridos dum acidente.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os meus POETAS.........

Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossívelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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Um abraço
Ana

sábado, 26 de janeiro de 2013

Os meus POETAS.....

Exorcismo


Canto
O meu desencanto.
Este cansaço
Lasso
De tudo quanto,

Esta melancolia
Penitente
De quem sente
Que luta e que porfia
Inutilmente.

Esta baça impressão
De que nada vale.
Esta tristeza triste
Que resiste
Às razões da razão inconformada.

Miguel Torga – Diário

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Um abraço Ana


sábado, 19 de janeiro de 2013

Os meus POETAS.......


“- Lavro aqui mais uma vez o meu protesto contra toda esta filosofia do pessimismo que nos sufoca, e esta literatura do absurdo que nos liquida. Nenhum argumento nem nenhum sortilégio podem apagar no espírito do homem a luz de ilusão que ali bruxuleia. O erro grosseiro dos ironistas e dos derrotistas é não verem que eles próprios desmentem o visco e as profecias, porque, se lutam, é porque confiam. Sobretudo parece-me uma limitação querer fotografar para a eternidade a face monstruosa de um momento. A Europa pode estar cansada, falida, contaminada por vícios incuráveis, mas a Europa não é o mundo, e ela própria tem ainda pedaços do corpo sem gangrena. Quando todos os analfabetos e famintos que lhe restam tiverem voz e pão, e falem de náusea, quando a herança da história, os bens do espírito forem repartidos igualmente por todos os seus filhos, e o clamor colectivo seja de teimosa renúncia, então sim, soou a hora. Mas antes disso, não!
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Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da actual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos deitam sal nas chagas para as avivar.

Alienação humana! Quem é que autorizou meia dúzia de intelectuais impotentes a falar deste modo em nome da humanidade? A chapinhar na lama deles, e a proclamar que é na lama dos outros? Que o testemunho da nossa aventura na terra é um rosário de traições e injustiças, ninguém o nega; que é preciso que se diga isso de todas as maneiras, é evidente; mas nem tudo o que fizemos foi mau, e estamos a começar ainda.

Não! Há-de haver uma salvação possível neste mar de naufrágios, e vão sendo horas de erguer a voz contra os derrotistas da jangada. Aterrados pelas suas fúnebres ladainhas, temo-nos esquecido de reparar nos acenos do horizonte, onde amanhece sempre uma ilha à nossa espera. Não a ilha solitária de Robinson, que seria o recomeçar inútil duma vida de egoísmo e de esterilidade, mas o húmus generoso dum novo mundo onde se possa semear a esperança.”


Miguel Torga – Diário Volumes V a VIII (08/02/1951)
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Um abraço
Ana

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os meus POETAS ....



LIBERDADE

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.


- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome



" Miguel Torga - Poesia Completa"


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Um bom 2013 e um abraço do tamanho do mundo.

Ana

domingo, 2 de dezembro de 2012

"Os meus Poetas ............"





“ A mulher instruída, a mulher emancipada, a mulher equiparada..óptimo, óptimo. Decorridos tantos milénios de equívoco e dissimulação – a tutela estratégica da virilidade insegura sofrida passivamente no plano social e repelida activamente no doméstico -, o sol repentino: a parelha edénica, irmanada na decência original, finalmente jungida em boa paz ao mesmo carro da vida. O tirano aflito, consumido, insatisfeito, que naufragava nos mares, caía do espaço, asfixiava nas minas, combatia de armas na mão, criava, investigava e descobria, desobrigado dessas exclusividades – que eram o penhor da sua soberania _, a lamber, também, as montras, fútil e feliz, com metade da carga dos problemas do mundo alijada. Por sua vez, aliviada do mito, a jogar jogo limpo, repesa das maçãs ardilosas do bem e do mal estendidas a boa-fé do Adão eterno, a correr risco de amar fogosamente um homem em vez de escolher apenas o pai dos filhos, obreira entre obreiros, envergonhada dos tempos privilegiados de rainha mestra dum enxame de zângãos, apostados em merecer a honra da selecção do voo nupcial…. A prova do fogo da declaração masculina, abolida, e o certificado físico da virgindade feminina, também. Tudo simples, natural e a meias. Um pacto de não agressão e de colaboração, sem cláusulas secretas, assinado por uma astúcia que pode tirar de vez para sempre a máscara da submissão e mostrar o rosto triunfante, e por uma candura filantrópica, que julga abdicar esclarecidamente dum mando que exercia na ordem precária dos factos, e que nunca lhe pertenceu de direito.”


“ MIGUEL TORGA – DIÁRIOS -1970”

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Um abraço.
Ana

domingo, 25 de novembro de 2012

"Os meus Poetas ".....

CHUVA

Chove um grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer….

Miguel Torga Diário -Março 1943

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Um abraço Ana




domingo, 21 de outubro de 2012

Os meus POETAS "18 de Maio de 19..."



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O movimento surpreendeu toda a gente. Surpreendeu os seus organizadores, que não contavam com tão pronta e ampla aceitação das palavras dadas. E surpreendeu as autoridades, que não haviam acreditado nos boatos de greve chegados de todo o lado através da rede de informadores. Se, a partir de 17 para 18, haviam ido prender Gaspar a sua própria casa, não fora tanto por receio da greve, como para pôr fim a tais boatos, que várias informações atribuíam a Gaspar.

Depois, no dia 18, aqueles mesmos que na véspera desdenhavam da possibilidade duma greve, julgaram tratar-se do prólogo duma insurreição. Daí os apelos ao governo das autoridades locais apavoradas e as impressionantes forças enviadas para a região.
Querendo punir exemplarmente todos os que participaram no movimento, os fascistas prenderam milhares de pessoas na tarde do dia 18. Prenderam a eito, sem fazerem seleção, como um monstro furiosos dando sapatadas no escuro.

Homens, mulheres e crianças, operários e camponeses, artesãos e comerciantes, todos quantos foram encontrados nos locais das manifestações, foram cercados, fechados em círculos de espingardas e metralhadoras e assim mantidos, enquanto um vaivém de camiões os ia levando para a capital. Na maior manifestação, aquela em que Paulo fora arrastado, a tropa, depois de cercar os manifestantes de depois de alguns recontros com tiros espadeiradas, fê-los entrar na arena da praça de touros e daí os acartou durante a noite e na manhã do dia seguinte.
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Uma semana depois do movimento, apareciam em toda a região novos manifestos, em várias fabricas Comissões pediam à gerência para transmitir às autoridades a reclamação dos trabalhadores de que fossem libertados os seus companheiros presos e o mesmo era feito em vilas e aldeias junto das autoridades locais.

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No dia 19, apresentaram-se ao trabalho quantos estavam em liberdade, mas, em muitos casos, quer em fábricas e oficinas quer nos campos, a faina foi reduzida, dado o elevado número de presos.

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Ainda no mês de Maio, tanto nos campos como nas fábricas e oficinas registaram-se apreciáveis aumentos de salários e por todas as terras da região apareceram géneros que há muito faltavam. Em todos os casos, era dito que tais medidas só eram possíveis com ordem nas ruas e com espírito de cooperação entre as classes e entre o povo e o governo e que, a verificarem-se mais perturbações como a do 18 de Maio, não poderiam ter lugar ou manter-se as melhorias. Os trabalhadores e a população em geral sorriam dessas razões, pois estava à vista que só em virtude do 18 de Maio tais concessões haviam sido alcançadas.””

“Até Amanhã Camaradas Manuel Tiago – Edições Avante”

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Um abraço do tamanho do mundo
Ana

domingo, 30 de setembro de 2012

"Os meus Poetas" - Engrenagem"

“Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas de uma engrenagem caduca”

“ Os homens baixaram a cabeça, em anuência. Ti Paulino parou de limpar o tampo do balcão; mas nada disse, A fraqueza do negócio e os fiados, que nunca recusava, tinham-lhe amortecido a antiga tagarelice. Envelhecera muito. Apenas à hora da B.B.C. vibrava ainda fiel às ideias e aos homens cujos retratos ornamentavam as paredes.

Zé Lérias continuou: - Razão tinha eu, desde o princípio; mas ninguém quis seguir os meus conselhos…. Agora, em vez de terras, tendes aquela sombra negra para sempre. Estão ali milhares de contos à ferrugem. – E pôs-se a marralhar em certa ideia.

- O mal não é da fábrica, mas da guerra, que consome as matérias-primas e o carvão – objectou Fariseu.

- Pois sim. Mas se cada qual amanhasse uma courela, tinha pão com fartura, pelo menos. Além disso trabalhava por sua conta, que é o melhor.

- Ora o que faz o progresso são as máquinas. Há lá coisa mais bela que um motor a trabalhar!

- Isso diz você, que nunca viu nascer um pé de trigo. Progresso! Você e os mais devem ter a barriga cheia dele.

Foi estendendo a mão à esquerda e à direita, em despedida, indiferente aos argumentos do operário, e, da porta chacoteou:

- Adeusinho. Avenham-se com o progresso.

Ninguém mais falou, por muito tempo. A controvérsia envenenara o ambiente, exacerbando a raiva contra a fábrica. Os operários passaram a olhá-la de banda e a distância, e, às vezes, dirigiam-lhes palavras rancorosas.
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O alarido batia de encontro aos peitos timoratos e abalava-os como porta que se não pode abrir, mas ia cedendo. Por fim o magote fez-se num mar de trapos e bramidos e o mar rolou pela rua abaixo com fragor.
……………………………………………………….

- Parem! A fábrica…… Escutem por favor….

Foi levado na onde humana, de roldão: bateu com a cabeça nas paredes; um fio de sangue escorreu-lhe da testa até aos beiços.
Levantou-se, porém: galgou o muro da horta, em correria e embrenhou-se na sombra do hangar.
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- Mas a maioria que Robalo chefiava pretendia esfanicar o forno e os motores.
De súbito, no patim da escada que dava acesso aos maquinismos, apareceu um vulto com o bico de uma parelho de soldar acesso, na mão direita, e um ferro, na sinistra.

-Aquele que subir, queimo-lhe os olhos! – Trovejou, embora incapaz de cumprir tal ameaça.

A multidão parou estupefacta. À luz do maçarico a cara do Fariseu, lambuzada de sangue, horrorizava.
……………………………………………………

Tenham juízo! - Berrou de novo, o operário - Qualquer dia podem aparecer comboios de carvão, e sem máquinas nunca mais haveria trabalho nesta aldeia. A culpa não é da fábrica. É de quem faz as guerras e a fome.

Tem razão - exclamou Triste. E foi como o sinal para um coro dissonante.

-Queremos pão!

- A gente quer trabalhar, e não tem onde!>



Oiçam! Aqui não se encontra que comer. Vamos à vila. O regedor Lazário foi-se embora? Pois reclamaremos trabalho ao administrador, que pode mais. Quem me acompanha?

- À vila ! À vila! Esganiçou-se a multidão, irrequieta e volúvel como as ondas do mar.

O orador desceu a escada e pôs-se em marcha. Atrás seguiu o povo da aldeia entusiasmado, passo largo, cada vez mais certo……..”

“Setembro 1944 – Soeiro Pereira Gomes- Engrenagem"


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Um abraço
Ana

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Histórias de Vida – “MEDOS”



As mesas estavam tão próximas que não pôde deixar de ouvir:

-“É melhor darmos o nosso nº de telemóvel e o da polícia aos nossos vizinhos e pedirmos que se ouvirem alguma coisa chamem a polícia.

-Para quê perguntou-lhe a mulher?

- “Assim vamos mais descansados para férias”, - respondeu-lhe o marido.”

Ouviu esta conversa no domingo à hora de almoço num restaurante de bairro, e, não pôde deixar de pensar que o MEDO estava a tomar conta dos portugueses,

Ela própria na véspera tinha estado todo o dia num estado de grande ansiedade, porque a sua filha mais nova tinha ido, pela primeira vez, a um concerto e para “apanhar um bom lugar”, tinha estado na fila desde as 9 horas da manhã e o concerto era só às 8 da noite !!!!

Cada vez que lhe ligava, antes do início do concerto e não era atendida, começava a sentir-se angustiada, MEDO tinha tido muito MEDO que lhe acontecesse alguma coisa!

As imagens que a televisão passou sobre o atentado de Utoya, já tinha passado um ano, deixaram-na angustiadas todo o fim-de-semana.

Lembrou-se que ainda há bem pouco tempo, ao ir apanhar o comboio para se deslocar para o seu emprego em Lisboa, tinha tido um “choque” :

- Ao chegar à estação dos comboios, por volta das sete e pouco da manhã, deu com dois comboios, parados, um a seguir ao outro, com meia dúzia de metros a separá-los, na linha do sentido, para Lisboa.

Dirigiu-se para o fim da estação, como era seu hábito e, deparou-se com uma multidão que ladeava um banco. Aproximou-se e viu um jovem, deitado com a camisa coberta de sangue.

“-Que tinha sido assalto diziam uns”. –“Foram os “pretos” essa cambada, diziam outros”.

Foi ter com um revisor que falava, ao telefone e que dizia em voz alta:

“ Que não sabia quando chegava o INEM e que não tinha telemóvel para ligar outra vez para o 112.”

Emprestou-lhe o seu telemóvel, para que ligasse para o 112, e, ficou a saber que não tinha sido um assalto mas sim o resultado de uma discussão entre passageiros.

- Na estação do Cacém um passageiro terá empurrado uma jovem, a mãe da jovem interveio e, o passageiro não esteve com meias medidas, agrediu as duas. O jovem, o ferido, interveio, e nem deu porque tinha levado uma facada, dada pelo tal passageiro, que entretanto se tinha posto em fuga e que afinal até era branco……

Ainda assistiu à passagem do tal passageiro, algemado, acompanhado já por polícias a caminho da esquadra.

À noite tentou saber, junto do responsável da estação se tinha alguma notícia do jovem, mas não obteve nenhuma informação.

A que estado, de alma, chegámos para que uma discussão origine tanta violência.

Não se conseguia libertar da sensação de que vivíamos uma paz, que era artificial, e que um dia destes rebentava que nem uma bolha gigante.

A ineficácia do Governo também contribuía, e muito, para o MEDO de que não se conseguia libertar. Não era MEDO físico era uma sensação de intranquilidade.

A intranquilidade de quem sente que o que foi conquistado pela sua geração está em perigo permanente:

- O Direito ao trabalho

– Quem pode ter tranquilidade com uma taxa de 18% de desemprego ??

- O Direito à saúde

– Quando ouvia alguém falar do Sistema Nacional de Saúde perdia a paciência. O que estava em causa era e é o Serviço Nacional de Saúde, consagrado na Constituição e não o Sistema Nacional de Saúde;

- O Direito à Educação

– Uma das suas filhas estava em risco de ter de mudar de escola, só porque tinha tido a pretensão de mudar de área no 10º.

- “Era o preço a pagar por não saber o que queria, tinha-lhe dito um responsável da escola” !!!!!!

A sua escola, a atual fica a 5 minutos de casa, mas as alterações resultantes dos Agrupamentos Escolares podem deixá-la sem vaga.

Se nos distraímos um pouco, só, que seja ficamos sem nenhuns direitos e, não pensava só em si pensava e muito, nas gerações futuras.

O cansaço que sentia nas pessoas com quem se cruzava no dia-a-dia, também, lhe fazia sentir MEDO. MEDO da apatia, generalizada, que pouco a pouco ia ganhando terreno no seu, nosso, País.

Ao ver as notícias das manifestações em Espanha, e, não gostava mesmo nada que nos comparassem com os Espanhóis, não pôde deixar de se lembrar de um Poema de Miguel Torga:

PANORAMA

Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras,
Sem gritos,
Sem o eco sequer duma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! Povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!

“Miguel Torga-Poesia Completa”
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UM abraço Ana

sábado, 7 de julho de 2012

Histórias de Vida – Amorfismo ou Medo?



Um destes dias ouvi um dirigente sindical afirmar em público que tínhamos que acabar com o amorfismo em que os portugueses estão.

Há muito tempo que não ouvia empregar este termo e tive dúvidas se o estava a entender bem. Pensando melhor penso que o que quereria dizer é que os Portugueses precisam de reagir de partir para a luta de não se acomodarem….

Não sei se os Portugueses estão a sofrer de amorfia mas tenho a certeza que a uma boa parte deles o que os impede de falar é o MEDO, MEDO de perderem o emprego, MEDO de serem agredidos. MEDO !!!!! MEDO !!!!! De tudo.

Vem isto a propósito de uma cena a que assisti nos Armazéns do Chiado na cafetaria dum espaço que vende livros, música….

Estava eu sentada a uma mesa, a comer, quando vejo uma jovem com uma chávena de chá numa mão e um prato com um bolo na outra dirigir-se para uma mesa que estava vazia.

Volto a olhar e vejo-a a voltar para trás a abanar a cabeça, com um ar indignado.

Moral da história, estava um grupo na fila para pagar os cafés e um dos membros saiu da fila para ir “marcar” a mesa e a jovem que estava à frente ficou sem lugar.

Ofereci-lhe lugar na minha mesa, que aceitou, e fiquei com vontade de a questionar porque é que não tinha dito nada, mas não o fiz. Certamente o que a travou a ela foi o medo de uma discussão em público. O que me travou a mim foi o pudor, não a quis incomodar mais do que já estava.

Será que já não vale a pena reagir? Que já estamos tão esgotados? Que já nos consideramos derrotados?

Quem responde ????

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É uma republicação mas a pergunta mantém-se:

- Quem responde?

- Por onde andam que não se deixam ouvir?

Um abraço
Ana

Passeio BTT Aboboreiras