sábado, 26 de janeiro de 2013

Os meus POETAS.....

Exorcismo


Canto
O meu desencanto.
Este cansaço
Lasso
De tudo quanto,

Esta melancolia
Penitente
De quem sente
Que luta e que porfia
Inutilmente.

Esta baça impressão
De que nada vale.
Esta tristeza triste
Que resiste
Às razões da razão inconformada.

Miguel Torga – Diário

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Um abraço Ana


sábado, 19 de janeiro de 2013

Os meus POETAS.......


“- Lavro aqui mais uma vez o meu protesto contra toda esta filosofia do pessimismo que nos sufoca, e esta literatura do absurdo que nos liquida. Nenhum argumento nem nenhum sortilégio podem apagar no espírito do homem a luz de ilusão que ali bruxuleia. O erro grosseiro dos ironistas e dos derrotistas é não verem que eles próprios desmentem o visco e as profecias, porque, se lutam, é porque confiam. Sobretudo parece-me uma limitação querer fotografar para a eternidade a face monstruosa de um momento. A Europa pode estar cansada, falida, contaminada por vícios incuráveis, mas a Europa não é o mundo, e ela própria tem ainda pedaços do corpo sem gangrena. Quando todos os analfabetos e famintos que lhe restam tiverem voz e pão, e falem de náusea, quando a herança da história, os bens do espírito forem repartidos igualmente por todos os seus filhos, e o clamor colectivo seja de teimosa renúncia, então sim, soou a hora. Mas antes disso, não!
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Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da actual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos deitam sal nas chagas para as avivar.

Alienação humana! Quem é que autorizou meia dúzia de intelectuais impotentes a falar deste modo em nome da humanidade? A chapinhar na lama deles, e a proclamar que é na lama dos outros? Que o testemunho da nossa aventura na terra é um rosário de traições e injustiças, ninguém o nega; que é preciso que se diga isso de todas as maneiras, é evidente; mas nem tudo o que fizemos foi mau, e estamos a começar ainda.

Não! Há-de haver uma salvação possível neste mar de naufrágios, e vão sendo horas de erguer a voz contra os derrotistas da jangada. Aterrados pelas suas fúnebres ladainhas, temo-nos esquecido de reparar nos acenos do horizonte, onde amanhece sempre uma ilha à nossa espera. Não a ilha solitária de Robinson, que seria o recomeçar inútil duma vida de egoísmo e de esterilidade, mas o húmus generoso dum novo mundo onde se possa semear a esperança.”


Miguel Torga – Diário Volumes V a VIII (08/02/1951)
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Um abraço
Ana

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os meus POETAS ....



LIBERDADE

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.


- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome



" Miguel Torga - Poesia Completa"


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Um bom 2013 e um abraço do tamanho do mundo.

Ana

domingo, 2 de dezembro de 2012

"Os meus Poetas ............"





“ A mulher instruída, a mulher emancipada, a mulher equiparada..óptimo, óptimo. Decorridos tantos milénios de equívoco e dissimulação – a tutela estratégica da virilidade insegura sofrida passivamente no plano social e repelida activamente no doméstico -, o sol repentino: a parelha edénica, irmanada na decência original, finalmente jungida em boa paz ao mesmo carro da vida. O tirano aflito, consumido, insatisfeito, que naufragava nos mares, caía do espaço, asfixiava nas minas, combatia de armas na mão, criava, investigava e descobria, desobrigado dessas exclusividades – que eram o penhor da sua soberania _, a lamber, também, as montras, fútil e feliz, com metade da carga dos problemas do mundo alijada. Por sua vez, aliviada do mito, a jogar jogo limpo, repesa das maçãs ardilosas do bem e do mal estendidas a boa-fé do Adão eterno, a correr risco de amar fogosamente um homem em vez de escolher apenas o pai dos filhos, obreira entre obreiros, envergonhada dos tempos privilegiados de rainha mestra dum enxame de zângãos, apostados em merecer a honra da selecção do voo nupcial…. A prova do fogo da declaração masculina, abolida, e o certificado físico da virgindade feminina, também. Tudo simples, natural e a meias. Um pacto de não agressão e de colaboração, sem cláusulas secretas, assinado por uma astúcia que pode tirar de vez para sempre a máscara da submissão e mostrar o rosto triunfante, e por uma candura filantrópica, que julga abdicar esclarecidamente dum mando que exercia na ordem precária dos factos, e que nunca lhe pertenceu de direito.”


“ MIGUEL TORGA – DIÁRIOS -1970”

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Um abraço.
Ana

domingo, 25 de novembro de 2012

"Os meus Poetas ".....

CHUVA

Chove um grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer….

Miguel Torga Diário -Março 1943

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Um abraço Ana




domingo, 21 de outubro de 2012

Os meus POETAS "18 de Maio de 19..."



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O movimento surpreendeu toda a gente. Surpreendeu os seus organizadores, que não contavam com tão pronta e ampla aceitação das palavras dadas. E surpreendeu as autoridades, que não haviam acreditado nos boatos de greve chegados de todo o lado através da rede de informadores. Se, a partir de 17 para 18, haviam ido prender Gaspar a sua própria casa, não fora tanto por receio da greve, como para pôr fim a tais boatos, que várias informações atribuíam a Gaspar.

Depois, no dia 18, aqueles mesmos que na véspera desdenhavam da possibilidade duma greve, julgaram tratar-se do prólogo duma insurreição. Daí os apelos ao governo das autoridades locais apavoradas e as impressionantes forças enviadas para a região.
Querendo punir exemplarmente todos os que participaram no movimento, os fascistas prenderam milhares de pessoas na tarde do dia 18. Prenderam a eito, sem fazerem seleção, como um monstro furiosos dando sapatadas no escuro.

Homens, mulheres e crianças, operários e camponeses, artesãos e comerciantes, todos quantos foram encontrados nos locais das manifestações, foram cercados, fechados em círculos de espingardas e metralhadoras e assim mantidos, enquanto um vaivém de camiões os ia levando para a capital. Na maior manifestação, aquela em que Paulo fora arrastado, a tropa, depois de cercar os manifestantes de depois de alguns recontros com tiros espadeiradas, fê-los entrar na arena da praça de touros e daí os acartou durante a noite e na manhã do dia seguinte.
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Uma semana depois do movimento, apareciam em toda a região novos manifestos, em várias fabricas Comissões pediam à gerência para transmitir às autoridades a reclamação dos trabalhadores de que fossem libertados os seus companheiros presos e o mesmo era feito em vilas e aldeias junto das autoridades locais.

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No dia 19, apresentaram-se ao trabalho quantos estavam em liberdade, mas, em muitos casos, quer em fábricas e oficinas quer nos campos, a faina foi reduzida, dado o elevado número de presos.

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Ainda no mês de Maio, tanto nos campos como nas fábricas e oficinas registaram-se apreciáveis aumentos de salários e por todas as terras da região apareceram géneros que há muito faltavam. Em todos os casos, era dito que tais medidas só eram possíveis com ordem nas ruas e com espírito de cooperação entre as classes e entre o povo e o governo e que, a verificarem-se mais perturbações como a do 18 de Maio, não poderiam ter lugar ou manter-se as melhorias. Os trabalhadores e a população em geral sorriam dessas razões, pois estava à vista que só em virtude do 18 de Maio tais concessões haviam sido alcançadas.””

“Até Amanhã Camaradas Manuel Tiago – Edições Avante”

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Um abraço do tamanho do mundo
Ana

domingo, 30 de setembro de 2012

"Os meus Poetas" - Engrenagem"

“Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas de uma engrenagem caduca”

“ Os homens baixaram a cabeça, em anuência. Ti Paulino parou de limpar o tampo do balcão; mas nada disse, A fraqueza do negócio e os fiados, que nunca recusava, tinham-lhe amortecido a antiga tagarelice. Envelhecera muito. Apenas à hora da B.B.C. vibrava ainda fiel às ideias e aos homens cujos retratos ornamentavam as paredes.

Zé Lérias continuou: - Razão tinha eu, desde o princípio; mas ninguém quis seguir os meus conselhos…. Agora, em vez de terras, tendes aquela sombra negra para sempre. Estão ali milhares de contos à ferrugem. – E pôs-se a marralhar em certa ideia.

- O mal não é da fábrica, mas da guerra, que consome as matérias-primas e o carvão – objectou Fariseu.

- Pois sim. Mas se cada qual amanhasse uma courela, tinha pão com fartura, pelo menos. Além disso trabalhava por sua conta, que é o melhor.

- Ora o que faz o progresso são as máquinas. Há lá coisa mais bela que um motor a trabalhar!

- Isso diz você, que nunca viu nascer um pé de trigo. Progresso! Você e os mais devem ter a barriga cheia dele.

Foi estendendo a mão à esquerda e à direita, em despedida, indiferente aos argumentos do operário, e, da porta chacoteou:

- Adeusinho. Avenham-se com o progresso.

Ninguém mais falou, por muito tempo. A controvérsia envenenara o ambiente, exacerbando a raiva contra a fábrica. Os operários passaram a olhá-la de banda e a distância, e, às vezes, dirigiam-lhes palavras rancorosas.
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O alarido batia de encontro aos peitos timoratos e abalava-os como porta que se não pode abrir, mas ia cedendo. Por fim o magote fez-se num mar de trapos e bramidos e o mar rolou pela rua abaixo com fragor.
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- Parem! A fábrica…… Escutem por favor….

Foi levado na onde humana, de roldão: bateu com a cabeça nas paredes; um fio de sangue escorreu-lhe da testa até aos beiços.
Levantou-se, porém: galgou o muro da horta, em correria e embrenhou-se na sombra do hangar.
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- Mas a maioria que Robalo chefiava pretendia esfanicar o forno e os motores.
De súbito, no patim da escada que dava acesso aos maquinismos, apareceu um vulto com o bico de uma parelho de soldar acesso, na mão direita, e um ferro, na sinistra.

-Aquele que subir, queimo-lhe os olhos! – Trovejou, embora incapaz de cumprir tal ameaça.

A multidão parou estupefacta. À luz do maçarico a cara do Fariseu, lambuzada de sangue, horrorizava.
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Tenham juízo! - Berrou de novo, o operário - Qualquer dia podem aparecer comboios de carvão, e sem máquinas nunca mais haveria trabalho nesta aldeia. A culpa não é da fábrica. É de quem faz as guerras e a fome.

Tem razão - exclamou Triste. E foi como o sinal para um coro dissonante.

-Queremos pão!

- A gente quer trabalhar, e não tem onde!>



Oiçam! Aqui não se encontra que comer. Vamos à vila. O regedor Lazário foi-se embora? Pois reclamaremos trabalho ao administrador, que pode mais. Quem me acompanha?

- À vila ! À vila! Esganiçou-se a multidão, irrequieta e volúvel como as ondas do mar.

O orador desceu a escada e pôs-se em marcha. Atrás seguiu o povo da aldeia entusiasmado, passo largo, cada vez mais certo……..”

“Setembro 1944 – Soeiro Pereira Gomes- Engrenagem"


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Um abraço
Ana

Passeio BTT Aboboreiras