sábado, 20 de fevereiro de 2010

Saudade...

A saudade é como um rio
Corre sempre sem parar
Em seu leito,choram as pedras
Na vida somos nós a chorar.

A saudade é uma ilusão
Uma escada sempre ocupada
Não há um espaço vazio
Onde não haja uma mágoa.

Magoas de amor, quem não teve
Talvez porque nunca amou
Por ter medo de sonhar
Ou porque nunca acordou.

É sempre tempo de acordar
E sonhar uma vez na vida
Mesmo que deixe uma mágoa
Nunca é saudade perdida.

(autor desconh.)








Bjinho e abraço...ambos com saudade... :)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mar

Viva

Só depois de adulta senti a dôr de ver partir os meus ente queridos. Não consigo imaginar a DOR de uma criança ao perder o avô.

É tão revoltante que passados 55 anos ainda continuem a morrer pescadores portugueses no mar, que ainda se arrisque tanto por necessidade de sobreviver, que com tanto plano tecnológico, tanta tecnologia, se corram tantos riscos......

Lembram-se daquela conversa que vos contei que ouvi em Alcaçer do Sal?

"a minha mãe não tinha um pedaço de chão para plantar uma couve,éramos ....muitos, tínhamos de ir ao mar senão não comíamos...........e o meu irmão tão pequenino sempre a chorar ....."

Para o Nuno Paulo:

Mar

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto....

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu que depois nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E qundo deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga - Poesia Completa II

Um abraço
Ana Fernandes

AINDA NATÁLIA

Cara amiga, a amizade que tinha com a Natália e o Dórdio cingia-se às questões das letras, pois o Dórdio era também poeta, romancista e até, julgo, cineasta. Tanto quanto soube, mas só anos mais tarde, após o falecimento da Natália (se não erro em 1993), ela até foi casada quatro vezes a última das quais a partir de 1990 exactamente com o Dórdio. Quando foi daquela história que contei ela até era casada com Alfredo Machado (só soube isto posteriormente) mas como era muito mais velho e estaria muito debilitado, então ela teria supostamente uma relação com o Dórdio, mantendo o anterior casamento até 1989 (data em que morreu o marido).
Por aqui se vê que aquela afirmação "eu não tenho nem quero marido" não correspondia à verdade, e que isso teria só o objectivo de causar sensação junto da juventude, de mostrar a sua rebeldia que todos conhecemos, ou porque quanto a essa circunstância achasse preferível dar-lhe outra designação. Aliás Alfredo Machado fora mesmo o grande amor da sua vida.
Quanto ao Dórdio voltei a estar com ele em Leiria onde fui ver uma exposição, para a qual me convidou (não fui á inauguração, mas dois dias depois, um sábado) sobre a vida da Natália (após a sua morte) talvez em 1994 ou 1995. Lanchámos juntos e falou-me da Natália por quem era mesmo muito apaixonado.
Sei que tentei trazer essa exposição a Tomar, mas primeiro por dificuldades económicas da autarquia e numa segunda fase porque o responsável da cultura era contra a fazerem-se iniciativas acerca de defuntos, nunca consegui convencer a quem de direito para concretizar esse objectivo, apesar de trabalhar no Gabinete da Cultura do Município nesse momento.
Acresce aqui também a minha inexperiência e confiar demasiado em certas pessoas, mas isso são outras contas, contudo fiquei com uma mágoa muito grande.

Pescadores

Dos jornais de hoje, 19 de Fevereiro de 2010:
Quatro pescadores de Peniche estão desaparecidos desde ontem à noite. Vão ser iniciadas buscas...

Dos jornais de 15 de Setembro de 1955:
Naufragou na barra de Aveiro, junto a S. Jacinto, uma traineira de Peniche com 17 pescadores a bordo.

Dos jornais de 19 de Setembro de 1955:
António Paulo, conhecido como Sardinha Arinca e que era o mestra da traineira Graça de Deus que naufragou no passado dia 14, deu à costa na praia de Buarcos, Figueira da Foz. Os restantes 16 pescadores continuam desaparecidos.

O que nenhum jornal noticiou:
Desde 14 de Setembro de 1955, nunca mais um menino ouviu o seu avô chamá-lo pela rádio marítima como o fez, pela última vez, nesse dia ao final da tarde:
Nuno Paulo...Nuno Paulo...Nuno Paulo...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Auto retrato de Natália Correia

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia


Virgilio, li algures que a Natália Correia e o Dordio Guimarães afinal sempre eram casados. Que tinham casado em 1990, dado que os conhecestes confirmas?

UM abraço
Ana Fernandes


Um abraço
Ana Fernandes

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Natália Correi

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

POIS É XAVIOTA

Pois é, apesar de alguns remoques a despropósito gostei do comentário, Xaviota! Gostei porque eu admirava a Natália Correia, a sua imponência e impertinência! A passagem que vou contar expressa bem a sua forma de estar no mundo, desabrida e provocante. Como antes referi existiu aquela associação de escritores a quem ela dedicava especial carinho. Nesse ano de 1985 resolvemos fazer um Encontro Nacional, que decorreu no Paço dos Duques em Guimarães e até contou com a presença do então Secretário de Estado da Juventude, nada mais nada menos que o Marques Mendes... era a época apoteótica do Cavaquismo!
É certo que para esse efeito teve imenso peso o vice-presidente da Associação pertencer à JSD, mas políticas à parte foram três dias de grande animação intelectual, com muitos jovens portugueses e outros das países de expressão portuguesa.
Ora a estadia foi no Hotel Conquistador e íamos chegando aos poucos! Eu estava com uma amiga de Évora, que andaria pelos 22/23 anos, a trocar impressões e a Natália ao balcão a fazer o registo (chek-in), já nos tínhamos cumprimentado uns aos outros e ali estávamos. Entretanto o Dórdio chamou pela Natália, uma e outra, e ainda outra vez. Ela não lhe deu resposta e a amiga com quem eu estava chegou-se junto da Natália e disse-lhe: "Olhe D. Natália o seu marido está a chamá-la!"
Resposta pronta, naquele vozeirão que fazia tremer tudo à sua volta, na ponta da língua da Natália: "O meu marido não! O tipo com quem eu durmo e que eu autorizo que durma comigo, que eu cá não tenho nem quero maridos!"
Um silêncio abateu-se por completo na recepção, ninguém se atrevia a dizer uma palavra, a minha amiga e eu fizemo-nos da cor de um tomate! A Natália impávida e serena concluiu o registo, virou-se e gritou: "Dórdio, já podemos subir para o quarto!" Pegou na mala saiu em direcção aos aposentos com a a maior das naturalidades.
Pouca gente sabia, e eu também não, que eles não eram casados, mas não foi isso que nos afectou mas o aparente desprezo com que a nossa "ídolo" disse aquelas palavras!
Já agora Ana desculpa a mania das escritas e fazer-te andar de blogue para blogue! Para os outros, contem umas coisas engraçadas... eu deixo beijos e abraços e quero saber a data de Peniche, pois tenho Maio muito ocupado e não quero faltar!
(Este "post" foi alterado em 18/02/2010 por especial deferência de Xaviota que alertou para a existência de um erro num dos nomes referidos)

Passeio BTT Aboboreiras