quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Murmúrios.....Memórias.....Orgulho

Tal como a maioria dos portugueses que utilizam os transportes públicos eu também já estou a começar a criar rotinas.

Tento "apanhar" o comboio no mesmo horário e entro quase sempre na mesma carruagem.

Hoje dei comigo a constatar que já começo a identificar os passageiros:

É o bancário, estremamente bem vestido e que aproveita a viagem para ler, é a mãe e a filha que aproveitam a viagem para dormir, são os putos que frequentam a escola profissional na Reboleira e que deixam vagos uns quantos lugares, é a senhora que aquela hora já vem muito bem maquilhada, etc.

Normalmente eu venho de pé porque não há lugares ,entretida, a escutar os murmúrios das conversas e a tentar perceber qual o estado de espirito daquelas pessoas.

Hoje olhei para uma das paredes da carruagem e li a marca:

SOREFAME - SIEMENS 1997

Pensei : Este comboio foi construído pela minha equipa, a equipa das UQEs

Entretanto o comboio parou na estação da Reboleira e olhei para o espaço onde a SOREFAME existiu durante tantos anos.

Não sei se posso dizer após estes anos, que já não sinto mágoa pelo encerrramento da empresa que quando foi encerrada se chamava Bombardier.

Sempre estive ciente de que a deslocalização da empresa daquele local era inevitável, aqueles terrenos valiam e valem uma fortuna, nunca pensei é que fosse tão cedo e que fosse encerrada.

Voltei a pensar no tema que o Virgilio trouxe para a mesa, o desemprego, e pensei nas pessoas que como eu fizeram parte da equipa que construiu aquele comboio e tantos outros.

Pensei:
Tanta competência desperdiçada, tanto reforma antecipada de pessoas que tanto tinham ainda a dar, a transmitir, tanto sofrimento de toda uma comunidade.

E sim, senti mágoa, pelo destruição de toda uma indústria,pelos nossos governantes tratarem dos assuntos do nosso país "com os pés", expressão que as minhas filhas tanto usam.

Ainda agora na questão da divida externa..... a não saberem defender convenientemente o nosso país entretidos, envolvidos constantemente em tricas......

E pensei que, talvez, alguns dos trabalhadores da Sorefame, sintam o que eu sinto quando ando no Metro, quando atravesso a Ponte sobre o Tejo, quando ando de comboio, quando olho para as barragens espalhadas por todo o país e pelo mundo, que apesar de terem destruído a nossa empresa, tal como fizeram com tantas outras no nosso país não conseguiram nem conseguem destruir o orgulho que eu e certamente tantos outros sentem por termos deixado, TODOS, mas TODOS, um bocadinho de obra feita, por termos feito parte da equipa.

Um abraço do tamanho do mundo.

Ana Fernandes

Reflectir...


Olá AMIGOS, mais uma vez para divagar e afogar os constrangimentos.

Farto-me de rir com alguns comentários que aqui vejo, mas como já referi, "no coments".

Esta problemática do emprego/desemprego, é algo que nos merece meditar, perder, ganhando algum tempo. Merece reflexão.

Às vezes dou comigo a meditar como é que uma família com dois miúdos, como os meus, que andam na escola, desempregados, conseguem olhar para as crianças e explicar-lhes que não podem dar-lhes o que eles precisam. Que só têm dinheiro para a alimentação e, para essa, é muito à conta.

Como se consegue dizer que não podem ir ao cinema com os amigos, pois não há dinheiro. Como se consegue explicar às crianças que não podem ter alguns "mimos", pois é sempre à conta.

Deve ser complicado. é por isso que nos cabe a todos, não como dizia um "parvo", celebrar o "dia dos pobres", mas sim, tentar que acabem.

Utópico? Talvez. Mas se ficarmos colado à nossa cadeira e só olharmos para o nosso umbigo, assim, é claro que não chegamos lá.

Obrigada Virgílio e Ana, pelos momentos em que nos fazem pensar e reflectir sobre temáticas que não convêm ser faladas ou sequer mexidas.

Fiquem bem. Beijos e abraços dentro da necessidades.

P.S.

Falta a ginginha de Óbitos, mas está quase a chegar a sardinha de Peniche.

Abraço, Jaime MAtos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Desemprego......Desespero.....

Viva

Fiquei a pensar no poema do Virgilio e no drama que é o desemprego.

Costumo dizer que só quem por lá passa sabe a angústia que se vive quando se enfrenta uma situação de desemprego.Os altos e baixos , a esperança, a desesperança, o desânimo. É preciso uma grande força de vontade para resistir a metermo-nos na cama e aguardar que a "crise passe".

Vivi de perto o drama de colegas que não tiveram coragem para enfrentar o despedimento......

Não me venham dizer que, para quem tem habilitações não é tão grave, É SEMPRE GRAVE, é preciso uma grande força de vontade para nos levantarmos e enfrentarmos o dia a dia.

Falo de Cátedra porque em 2003 passei por essa situação.

Houve uma altura em que eu olhava para as caras das pessoas que passavm por mim e já dava por mim a pensar:

-Para estarem aqui a esta hora é porque estão desempregados.

Penso que não deve haver nenhuma família no nosso país que não tenha um membro no desemprego. Eu tenho e não é por falta de habilitações antes pelo contrário. As habilitações em "excesso, também pesam e muito.........!!!!!!!

No outro dia dei comigo a pensar que haverá vários niveis de "desemprego". O desemprego efectivo, de maior ou menor duração e aquele de que a nossa juventude é vitima, o subemprego. O terem de aceitar empregos que nada têm a ver com aquilo para que se preparam, por uma questão de sobrevivência.

A jovem advogada que trabalha num qualquer Calcenter. O psicólogo que é caixa num supermercado,a jovem professora com um Mestrado a trabalhar como Caixeira numa qualquer loja...... se começar a narrar os casos que conheço a lista nunca mais acaba.

No outro dia a minha filha mais nova dizia-me que alguns dos colegas dela mudaram de escola porque os pais tiveram de mudar de casa... e que noutros casos um dos pais ficou desempregado e teve de emigrar.

Outro dia ouvi alguém a argumentar:

- "De que é que se queixa tem emprego que mais quer"


Não era nada comigo mas tive vontade de intervir. É como se fosse um favor o termos emprego.

Será que não é um direito de todos?

Bom já é tarde

Um abraço
Ana Fernandes

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

DESEMPREGADO

Hoje é um poema ... para os que não gostam de poesia poderem protestar. Um poema que enche as nossas ruas, um poema real que nos sangra a consciência humana. Um poema que não deveria de existir. É uma ferida no meu egoísmo por não poder fazer mais nada:
........
Tinha casa, carro modesto
e emprego, mais ou menos,
e amealhava sempre um resto
para momentos menos serenos.
Ganhava com suor o seu pão
que comia, com a mulher e filhos
mas eis que o desalmado patrão
resolveu arranjar-lhe sarilhos.
Porque havia a crise mundial
mandou-o para casa, embora,
e se tinha pena não havia sinal
pois começaria a pagar á hora.
O carro já vendeu, a casa quase,
o mísero pé-de-meia já gastou
pois dizem que é a malvada crise
que até os sonhos lhe assaltou.
O patrão carro novo já tem
foi comprar lagosta e sapateira
porque tem de tratar-se bem
e viver de qualquer maneira!
Tem o duro pão para comer
mas em lágrimas remolhado
apenas para os filhos convencer
que é um alimento abençoado.
Meia dúzia de farrapos é a roupa
que lhe vão servindo de agasalho
come água fervida como sopa
e deambula à procura de trabalho.
..............
É um contributo, um grito de revolta por aqueles que não pode gritar porque têm a garganta seca de tanta promessa traída... mentiras que ferem a dignidade. Enfim desculpem o desabafo, mas continuarei... esta luta!
Para todos um bem haja... mesmo com as minhas asneiras

Surdez.....emocional

Viva amigos

Ontem, à tarde, domingo, fui à farmácia, e como é meu costume dei as boas tardes ao entrar.
A farmácia estava cheia, mas penas uma pessoa me respondeu.
À noite fui ao café dei as boas noites,e, ninguém me respondeu.
Hoje ao pequeno almoço, no café, apenas o dono me respondeu aos bons dias.
Anda tudo surdo?
A surdez emocional virou epidemia nacional? Sim porque se trata de surdez mas... emocional....
Custa alguma coisa responder?
Custa darmos um puco de nós aos outros?

Entretanto aqui fica:

Diálogo

Pergunto...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar....

Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também.....

Perguntam, mas a quem?

Miguel Torga in Poesia Completa II

Um abraço do tamanho do mundo.
Ana Fernandes

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cumpre-te hoje, não Esperando

Viva amigos

Embora seja dirigido a uma mulher penso que este poema do Ricardo Reis se pode aplicar hoje, a todos nós.

Temos de nos cumprir hoje:


Cumpre-te Hoje, não Esperando

Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando.
Tu mesma és tua vida.

Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, a sorte não te
Interpõe o abismo?

Ricardo Reis, in "Odes"

Um bom domingo e um abraço do tamanho do mundo para todos.

PS - Que bonito poema Luis e Zé onde tens andado?
Virgilio as verdades nunca são asneiras.
Beijos

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Lenda do Enfermeiro

Quando Deus criou o enfermeiro, teve de fazer horas suplementares. Era o 6º dia.

Disse-lhe um anjo: Senhor, há muito que trabalhais para fazer este modelo!

Já pensaste na longa lista de simbolos especiais inscritos nesta encomenda? A obra tem de ser entregue sob a forma masculina e feminina, facil de desinfectar, sem despesas de conservação e não pode ser de plástico. Deve ter nervos de aço, costas que resistam a toda a provação, sendo ao mesmo tempo dócil e gracioso para se poder sentir à vontade nos quartos de serviço demasiado pequenos. Deve poder fazer cinco ou seis coisas ao mesmo tempo, tendo o cuidado de manter sempre uma mão livre - respondeu Deus.

O anjo abanou a cabeça e disse:
- Seis mãos, isso é coisa impossível.

A dificuldade não está aí. O que me preocupa são os três pares de olhos que deve ter o modelo padrão; dois para ver de noite através das paredes, durante as velas e para vigiar duas unidades; dois olhos atrás da cabeça para ver aquilo que não gostariam que ele visse, mas que tem que ter absoluto conhecimento e, seguramente, dois olhos de frente, que olham para o paciente e lhe dizem "Compreendo-vos, estou aqui, não se preocupe." - respondeu Deus

O anjo puxou-lhe gentilmente pelo braço e disse:
- Ide Senhor, amanhã de manhã continuareis.

Não posso - respondeu Deus - Já consegui que raramente adoeça e se saiba tratar a si mesmo. Aceita que dez quartos duplos recolham quarenta doentes, mas nunca que dez postos de trabalho sejam apenas providos com 5 enfermeiros. Gosta muito da sua profissão, que exige muito dele e não é muito bem pago. Sabe viver com horários irregulares e aceita ter poucos tempos livres.

O anjo andou lentamente à volta do modelo do enfermeiro e suspirou:
- O material é demasiado mole.

Deus replicou: Mas é tenaz. Tu não imaginas tudo o que ele pode pensar! Não somente pensar, mas avaliar uma situação e tomar compromisso.
O anjo reclinou-se mais sobre o modelo, passou-lhe o dedo pela face e disse:
- Vejo aqui uma fenda.

Esta fenda é feita por uma lágrima - disse Deus.

Porquê?

Ela corre nos momentos de alegria, de tristeza, de decepção, de dor e desamparo. - explicou Deus. É a lágrima que serve de tubo de escape para o excedente.

"Os anjos estão no céu e os enfermeiros na terra"

(autor desconhecido)

Um mimo apertado de saudades para vocês!

Passeio BTT Aboboreiras